Os frutos

O processo de bordar coletivamente na rua aproxima e estranhos, abre espaços de diálogo, troca de saberes e resgate de memórias, estimulando relações de confiança e empatia entre estranhos e favorecendo a formação de vínculos sociais. O intercâmbio de toalhas com outros núcleos  de bordadores  de rua do país, tem fortalecido e expandido as raízes dessa rede e ampliado as possibilidades de desdobramento das ações. Entrar no território desta conversa implica pensar os sentidos possíveis para a prática artística no mundo contemporâneo em sua imbricação com o espaço público, conceber a possibilidade de inventar novos possíveis e tecer este chão comum de forma compartilhada. Na praça Lupicínio Rodrigues, as toalhas continuam a brotar, e em torno delas já se anunciam outros pontos de enlace, outros desejos: das fotografias brotou o desejo por fazer filmes, das histórias contadas o desejo de escrever, do bordar e do plantar, veio o desejo de desenhar e colaborar com os cultivos praça, de aprender mais sobre os ciclos das plantas e seus usos medicinais[i].

No vai e vem dos fios da conversa,  há sementes que germinam. Flores novas se  anunciam a cada estação, e os frutos logo amadurecerão.

 

Ana Flávia Baldisserotto

Coordenadora do projeto Bordado Inventado na Praça

Porto Alegre, verão de 2017

[i] Tarefa que tem sido desenvolvida por um  novo núcleo de trabalho, a oficina Desenho de Observação Orgânica do Atelier Livre, ativa na documentação e colaboração com os cultivos da Praça desde março de 2016.